Bancos brasileiros na B3: ROE e crédito no balanço do 2T26
Itaú, Bradesco, Santander Brasil e Banco do Brasil entram na temporada de resultados com narrativas divergentes. Revisamos projeções de margem, inadimplência e retorno sobre patrimônio para o segundo trimestre.
O setor financeiro representa cerca de 28% do Ibovespa e concentra boa parte do fluxo de dividendos da B3. Com a Selic em 14,25% ao ano, a remuneração de liquidez continua favorável, mas o mercado de crédito mostra sinais de desaceleração — especialmente em financiamento de veículos e crédito pessoal não consignado. Essa combinação define o pano de fundo para as projeções do segundo trimestre de 2026.
Itaú Unibanco: referência de eficiência
O Itaú mantém o maior ROE entre os grandes bancos privados, projetado em 21% para 2026 pelo consenso. A eficiência operacional — índice de despesas administrativas sobre receita abaixo de 38% — sustenta margens mesmo com competição acirrada em crédito consignado. Analistas da XP esperam crescimento de carteira de 9% no ano, com inadimplência acima de 90 dias estável em 2,1%.
A revisão de expectativa para o Itaú nas últimas semanas foi modestamente positiva, refletindo confiança na execução e no pipeline de crédito corporativo. O preço-alvo mediano do consenso situa-se em R$ 38, com recomendação majoritariamente de compra.
Bradesco: reestruturação digital no teste
O Bradesco enfrenta o desafio de demonstrar que a reestruturação digital — com fechamento de agências e investimento em canais remotos — está gerando ganho de eficiência mensurável. O ROE projetado de 16% para 2026 fica abaixo do Itaú, e o mercado aguarda evidência de redução do índice de despesas no balanço do segundo trimestre.
A carteira de crédito imobiliário e o segmento de empresas mostram resiliência, mas o varejo de alta renda enfrenta pressão. Provisões para devedores duvidosos devem permanecer estáveis, segundo o consenso, com risco de surpresa negativa se o mercado de trabalho esfriar mais rápido do que o esperado.
Santander Brasil e Banco do Brasil
O Santander Brasil compete agressivamente em consignado e financiamento de veículos, segmentos que cresceram acima da média do sistema em 2025. O ROE projetado de 18% reflete essa estratégia de volume, mas analistas do Santander Corporate monitoram a qualidade da originação — especialmente em crédito com garantia de veículo usado.
O Banco do Brasil navega entre crédito rural, que mantém inadimplência controlada, e pressão política sobre taxas de juros em linhas subsidiadas. O ROE projetado de 17% depende da manutenção da margem financeira e da disciplina de custos. A participação governamental no capital adiciona camada de incerteza regulatória que o mercado precifica com desconto em relação aos pares privados.
Com Selic elevada, bancos surfam a remuneração de liquidez — mas o crédito que financia o crescimento da carteira está mais seletivo do que há dois anos.
Cenário-base da Prime Brasil para o setor
Nosso cenário-base para bancos brasileiros no segundo semestre de 2026 assume:
- Manutenção da Selic em 14,25% até setembro, com cortes graduais a partir de outubro;
- Crescimento de carteira de crédito entre 7% e 9% no ano, com desaceleração no varejo;
- Inadimplência acima de 90 dias estável, sem deterioração abrupta;
- Provisões em patamar similar ao primeiro trimestre, com risco assimétrico para cima.
Essas premissas favorecem bancos com carteira corporativa e consignado robustos — Itaú e Santander — e pressionam instituições mais expostas a varejo de risco e crédito imobiliário de alta renda.
Implicações para quem acompanha a B3
Para investidores que constroem carteiras com base em projeções de mercado, o setor bancário oferece yield e visibilidade de caixa, mas com correlação elevada ao ciclo de juros. A revisão de expectativas para o segundo trimestre deve confirmar se a combinação Selic alta + crédito seletivo sustenta ROEs no patamar atual — ou se o mercado precisará recalibrar múltiplos para baixo.
Publicaremos atualização após a divulgação dos balanços individuais, comparando resultado real com o consenso pré-divulgação.